textos críticos

Os fazedores de mundo - Paula Braga

O espaço ocupado por alguém é sempre um espaço novo, criado naquele instante. Duas fotografias mostram um coqueiro à beira de um lago. É o mesmo coqueiro? Mesmo se for, será elemento de um espaço diferente em cada fotografia, pois é ocupado por uma pessoa diferente de cada vez. A experiência de cada um, naquele espaço com o coqueiro, é única.

Na video-instalação E.N. & L.I. Karina Zen explicita essa ideia do espaço que nunca é o mesmo. Quantos coqueiros existem naquela paisagem? Quantos forem as pessoas a vivenciarem aquele espaço. As duas projeções de fotografias da década de 1950 ora mostram o coqueiro ocupado por um homem, ora por uma mulher. E eles nunca se encontram, como nunca se encontram as percepções de mundo de duas pessoas diferentes ou da mesma pessoa em tempos diferentes. Passa o tempo, muda o coqueiro, o dela é um, o dele é outro. O coqueiro continua lá até hoje, em um sítio em Brusque, Santa Catarina. Mas não é nenhum dos coqueiros dessas fotografias do suposto mesmo coqueiro.

Então isso que chamamos de mundo é uma convenção que tenta unificar experiências múltiplas, distintas. Cada um faz o mundo com seu corpo, na experiência individual e incompartilhável de percepção das coisas. Cada um faz o mundo com seu sopro, moldando-o, inflando-o, fazendo-o ser aquele mundo específico, que se desfará quando o fazedor de mundo não estiver mais agindo para constituir mundo. Para o sopro, murcha o mundo. Outros se inflam no mesmo instante.

A paisagem de mundos que existem em paralelo, mundos criados por corpos diferentes, e que chamamos, no singular, de mundo, como se fosse único, intriga Karina Zen, que adota a fotografia e o vídeo, esses supostos registros mecânicos do real, para investigar a simultaneidade de mundos. O real talvez seja uma garrafa cheia de mundos, tantos quantos forem os grãos de areia de uma paisagem praiana. No vídeo Garrafinha, a paisagem construída com areia colorida é derramada em sua multiplicidade de grãos num espaço indefinido, vazio, desorganizando a cena típica do artesanato brasileiro; o casebre à beira do mar com coqueiros e passarinhos volta a ser uma mancha informe de grãos, volta a ser o material de que é feito o mundo antes de ser moldado por um entendimento específico e singular. Reorganizando todos aqueles grãos coloridos, quantas outras cenas conseguiríamos gerar? Depende de quantos estiverem a organizar a mancha, aplicando-a a conceitos de real.

Os personagens vegetais da série de fotografias Dona Morellli - Família Pereira – Dona Jandira vivem um mundo que é só deles, aqueles interiores domésticos calmos, sem eventos, que adivinho quando, passando por uma pequena cidade desconhecida, vejo cadeiras na calçada, ocupadas por um fazedor de mundo para mim incompreensível, que assiste a paisagem, sem sair do lugar, experimentando um tempo que se mede nos mesmos segundos que o meu, e que aparentemente habita o mesmo espaço que eu, e cujo mundo é completamente outro.

Se estivermos na mesma beira de lago, sentados no tronco inclinado do mesmo coqueiro, nunca nos encontraremos, eu e você. Estaremos cada um numa duração específica, em mundos simultâneos que não se sobrepõem. Karina Zen acredita nesses mundos paralelos.