textos críticos

Prefiro ficar sem objetos - Josué Mattos

Em 1916, Duchamp introduzia o termo readymade ao centro de uma acalorada discussão, que revisava o estatuto do artista como produtor de objetos. Estava em jogo identificar a trama discursiva engendrada por escolhas, deslocamentos e construção de dispositivos para os objetos recoltados. Inventava, com isso, modalidades inaugurais para a produção da arte e sua reflexão. Foi então que, há 101 anos, uma pá de neve veio a se chamar In Advance of the Broken Arm [Em antecipação ao braço quebrado]. Embora haja semelhança processual, um abismo temporal e discursivo – o que resolve qualquer intenção de ver repetição vil do gesto duchampiano – separa o modo como Karina Zen remonta o conjunto de objetos de The Final Cut, lugar em que a pá de neve serve para desobstruir uma quantidade espessa de matéria jocosa, pois, no cerne da questão, está um corpo-objeto incrustado numa trama narrativa que responde a sua existência e à insuspeitada inoperância do sistema de mais-valia, que o teria prometido mundos e fundos. Por isso, nesse jogo de poderes em que o sujeito figura como uma espécie de objeto consumado, vazio e destituído de sentido, o comentário saudosista é destroçado, em vias de fazer valer a presença de fragmentos de um corpo conformado a conviver com as conjunturas que o tornam uma peça manipulável. Segue, então, um braço quebrado por antecipação, lá, e um sujeito fisgado pela própria isca que injetou em seu anzol, aqui. A infertilidade do matagal intercalado em The Latest Desire, vídeo extraído da internet, sustenta as contradições de um território continuamente movediço. Onde o banal e o trágico caminham juntos com “sapatos do bom”, disponíveis ao acúmulo, depois da morte “do cara” que os transportava, uma das origens dos derradeiros mundos (The Last Map) alterados de dentro do mundo. Daí a vertigem e a construção do corpo-máquina, irrigando uma batalha de egos desprovida de interesses reais (Egos’ War). Na perspectiva de uma luta de detentores dos copyrights dos vícios que organizam e subjugam a sociedade, as figuras eretas e esvoaçantes esbofeteiam-se, enquanto enrijecem vantajosamente a vida massificada que sustenta e origina suas guerras sem causas comuns. Aceleram o enferrujamento da sociedade e arquivam seu restauro. Recebem, conforme a contrapartida prevista, um corpo que dá rasteiras na pulsação de seu próprio desejo, atinando apenas pela lógica do acúmulo incessante. Nesse campo minado, The Latest Desire estreita a prosa com o guarda-roupa desfigurado pelo excesso, cujo acúmulo corrompe a própria desmesura (Oversize). Enquanto isso, caixas-d’água lacrimejam seu próprio vazio, em cenas que repetem a desolação de um em contraponto aos ágeis pés descalços de outro, que se movimentam inquietos, a carregar caixas de sapatos e jogá-las, como se fossem sementes, na paisagem formada pela terra infértil que enquadra a cena. Nessa encruzilhada há, contudo, um ponto a não negligenciar: The Final Cut confere às atrocidades e descompassos do tempo presente uma selvageria circular, fundada no colapso que subordina este à produção e circulação de objetos, no mesmo grau em que assimila domesticidade e violência. Por isso, ao inverter a montagem de cabos de vassoura de palha, a artista procede de maneira a tornar visível a estranha naturalização da barbárie. Em sua ordem do dia, coube confrontar um povoado de sujeito-objeto, – nutrido e desenvolvido pelo “novo anti-sujeito heroico desse pós-mundo freneticamente desvitalizado, esta distopia jubilosa”1 – com uma repentina lucidez, que, diante da tragédia, diz: “prefiro ficar sem tênis e sem sapatos”. Enquanto personae arrematadas por readymades, os objetos de The Final Cut rebatem ao público uma desumanização latente, que parece gritar, em complemento: teria preferido ficar sem objetos.

Notas:

[1] Danowski, Déborah; Viveiros de Castro, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2014, p. 72.